O príncipezinho

São Tomé e Príncipe, uma história de turismo sustentável.

Como em tudo, o turismo sustentável implica uma mudança de mentalidades e de atitudes de todos: dos destinos, dos empresários da hotelaria, dos turistas e da população local que os acolhe. Estes últimos são fundamentais e são muitas vezes os mais esquecidos! Só com a tomada de consciência do papel de cada um na preservação dos recursos naturais, na diminuição da pegada ecológica, na reciclagem e na redução do desperdício, podemos ter um turismo diferente.

“A nossa felicidade tem um preço mas ele é demasiado alto para o planeta” - escreveu o Professor Gustavo Cardoso na Revista UP da TAP. Mallorca e Malé nas Maldivas são dois exemplos de ilhas onde a indústria do turismo alterou de forma devastadora os recursos e a vida locais. Mallorca tem sido palco de algumas manifestações anti-turismo massificado pelos locais: "Esto no es Disneyworld, esto no es un parque turístico" podia ler-se nas placas dos populares. Malé, capital das Maldivas, consideradas um destino de sonho, assistiu à desflorestação, à destruição de corais para dar lugar à construção de mais alojamentos e a um boom no crescimento da população. Aqui a densidade populacional é umas das maiores do mundo, já ultrapassa os ‎48.235 hab/km² nesta pequena ilha de apenas 9.27 km2. Com o crescimento descontrolado do turismo e da população surgem problemas como a poluição, a gestão de lixos e esgotos, a gestão de abastecimento de água, entre outras. Acerca do que se está a passar nas Maldivas, escrevia o fotógrafo britânico David Loftus há uns dias atrás no Instagram “é uma das nações mais deprimentes… ambientalmente estragada, com resorts luxuosos completamente desligados da realidade que geram toneladas de lixo que boia por todo o lado… e as comunidades locais correm o risco de ser as primeiras a perder o seu país com o aquecimento global”. Ainda assim é um dos destinos mais instagramados... dá que pensar.

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Malé, capital das Maldivas

image from www.reddit.com

O que me leva a outra questão: O que é hoje então o turismo de luxo? Continua a ser a cultura bling bling, os excessos, a importação de produtos exóticos para oferecer exclusividade aos hóspedes?

Mark Shuttleworth, CEO do grupo HBD (Here Be Dragons), traça desde há 5 anos um plano desafiante que tem como objetivo o turismo responsável e o desenvolvimento sustentável do destino. Para alguns paradoxal. Reza a história que este multimilionário, o primeiro africano a ir ao espaço, teve uma epifania que o fez literalmente descer à terra. Na sua viagem na missão TM-34 a bordo da nave Soyuz, confrontou-se com a pequenez do nosso planeta e, acima de tudo, com a sua fragilidade às nossas mãos. E foi já com os pés na terra que definiu a sua missão: fazer o possível por conservar a biodiversidade da ilha do Principe, pela qual sentiu amor à primeira vista.

photo credits  @fredericovanzeller

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É hoje proprietário de três unidades de ecoturismo no Príncipe: a roça Sundy, a Sundy Beach e o resort Bom Bom e ainda uma outra em São Tomé, o Omali Lodge. Mas a sua missão não é, nem será, fácil.

Em parceria com o governo local, melhorou infraestruturas, como o aeroporto e as estradas, reabilitou edifícios, criou postos de trabalho para a população, que tinha graves problemas de desemprego, recuperou escolas e tem sido benfeitor não só nos grandes pilares mas também nos mais pequenos, como vacinar os cães vadios da ilha.

Foi no sentido de valorizar e proteger esta Reserva Mundial da Biosfera (classificada pela UNESCO desde 2012) que fundou também a Fundação Príncipe, uma organização não-governamental que se dedica à conservação da natureza e das espécies endémicas da ilha. Hoje a fundação conquistou já alguma autonomia e, pela mão da portuguesa Estrela Matilde, tem contribuindo para o desenvolvimento económico e social das comunidades, criando formas de valorizar os recursos e talentos locais. Estrela tem sido impulsionadora de projetos como a Cooperativa de Valorização de Resíduos, que tivemos a oportunidade de visitar, onde as mulheres criam jóias a partir de vidro reciclado, o projeto de conservação de tartarugas, a sensibilização e formação dos locais para a recolha de mel sem exterminar as abelhas, o projeto de produção de sabonetes a partir de leite de côco, feitos pela mulheres da aldeia piscatória Abade e de certo que não ficará por aqui.

A filosofia do grupo HBD faz sentir-se um pouco por toda a ilha do Príncipe: a população tem orgulho na sua ilha, na sua Natureza selvagem, nos produtos da terra e compreendem hoje a importância da sua preservação. A banana seca, a baunilha, a granola à base de frutos locais, o cacau, o café, os sabonetes de leite de côco são alguns dos produtos que saem hoje da produção da Roça Paciência, uma roça desativada que o grupo está aos poucos a recuperar e a dinamizar com a transformação dos produtos locais. Aqui, no Príncipe, fazer turismo de luxo é testemunhar este equilíbrio entre o homem e a natureza, é poder fazer parte desta moldura natural quase intocada, de conhecer a cultura local, provar as delícias desta terra e Mark Shuttleworth percebeu isso! E eu diria que foi mais longe, conseguiu mostrar-nos (aos turistas), com a sua filosofia omnipresente, que o visitante tem o dever de conhecer, respeitar e vivenciar mas deixar intacto o destino que visita. "Não tragam plástico, não levem os elementos naturais da ilha", pode ler-se na comunicação dos hotéis, cada elemento tem a sua função neste ecossistema perfeito: uma concha servirá de abrigo a um caranguejo eremita, um côco no chão irá germinar e dar origem a um novo coqueiro na praia, uma folha seca irá fertilizar a terra... Vê, vive, fotografa e leva apenas a memória.

Destinos de luxo? São estes destinos onde ainda podemos sentir aquilo que nos liga verdadeiramente à Terra e onde sentimos o dever de respeitar o que nos rodeia: àrvores milenares, a flora e fauna endógenas, os produtos naturalmente biológicos e gente com o coração grande a dar o verdadeiro sentido à palavra hospitalidade.

O Sr. João, principense orgulhoso, mostrou-nos os encantos da sua ilha.  photo credits @fredericovanzeller

O Sr. João, principense orgulhoso, mostrou-nos os encantos da sua ilha. photo credits @fredericovanzeller

A gastronomia, como traço da cultura que é, enobrece os produtos que os são tomenses aprenderam a valorizar. Na cozinha do Omali, o chef consultor André Magalhães tem feito um trabalho notável na pesquisa e utilização de produtos locais de forma criativa e adequada à exigência dos seus clientes. Também são bons exemplos da cozinha local, a Casa de Almada Negreiros e a roça de São João de Angolares, cuja bandeira é a eco-cultura. No Sundy Beach, no restaurante OCA, o jantar de degustação também nos deixou boas memórias no palato. Ingredientes da terra, com twist criativo e surpreendente, sem nunca perder o sabor daqui mesmo!

Restaurante OCA no Sundy Beach.  Photo credits @fredericovanzeller

Restaurante OCA no Sundy Beach. Photo credits @fredericovanzeller

São Tomé e Príncipe tem nos seus patriotas os seus melhores embaixadores. Orgulhosos, abertos ao Mundo mas a manterem vivas as suas raízes e cultura.

A tentação do turismo de massas é grande, principalmente quando o investimento é colossal mas o Governo de São Tomé e Principe e o grupo HBD concluíram que não é isso que querem para este destino. Aqui a chegada de turistas faz-se a conta gotas, 33 passageiros, que vão e vêm em dois vôos diretos de São Tomé e é assim que querem manter. É a aposta na qualidade e não na quantidade.

Escolher um destino de férias como este é apoiar uma causa, uma filosofia, “um credo” como nos dizia Diogo do Sundy Praia: “Aqui não há jetski, nem outro tipo de atividades que não façam sentido. Temos tours para ver as baleias, trilhos pelo parque natural, observação de tartarugas e na nossa atividade tentamos interferir o menos possível com a natureza. Na construção das villas minimizámos ao máximo a utilização de cimento e privilegiámos a utilização de madeira local e replantamos o que tiramos à natureza. O cliente precisa de compreender isto.”
O turista do futuro é um co-turista, não paga para ter. É antes um agente ativo que em parceria com o destino turístico usufrui de momentos de lazer. Paga para poder ter o privilégio de assistir, compreender e respirar tudo isto. Paga um sonho do qual terá de despertar é uma verdade. Foi assim a nossa passagem num arquipélago algures no equador onde vivem as pessoas de coração grande e sorriso fácil. Obrigada Mark por acreditar neste asteroide mágico que é o Príncipe e não se deixe morder pela cobra!.

Obrigado pela oportunidade São Tomé e Príncipe. Lá no fundo vamos ouvir sempre ecoar: “Di nada.”

Já visitaram São Tomé e Príncipe? Contem-nos a vossa experiência nos comentários.

Vista aérea da ilha do Príncipe.  Photo credits  @fredericovanzeller

Vista aérea da ilha do Príncipe. Photo credits @fredericovanzeller