Somos todoS SOLO.

Hoje comemora-se o dia mundial do solo e o que temos a ver com isso? Tudo.





O solo que pisamos é o solo que nos alimenta. 

Algo que na cidade perdeu significado pois tudo o que nos chega aos supermercados foi produzido, algures no tempo, por alguém sem rosto, num local que desconhecemos, muitas vezes a kms de distância.


Se para todos nós é tão importante conhecermos o médico que cuida de nós, porque nos é tão indiferente conhecer quem produz os nossos alimentos e a forma como os produz? Foi esse questionamento que me fez há muitos anos ser co-produtora do sistema CSA da Herdade do Freixo do Alfredo Sendim.

Damos muitas coisas por adquiridas e uma delas é que a terra vai sempre estar cá para nos alimentar.

No passado dia aberto da Vivid Farms ficou ainda mais claro para mim que não é assim.

Bebi cada palavra do Paulo Carvalho na apresentação que fez ao grupo de pessoas que naquela manhã de sábado quiseram saber mais sobre o solo. Sim, algo tão particular como o solo.

Fiquei tão absorta que não tomei notas de nada. Mas a principal mensagem que retive é que é urgente cuidarmos da nossa casa comum, o planeta, começando por tratar do solo de outra forma. Diferente da forma como o temos tratado até aos dias de hoje: com exploração intensiva, com suplementação de nutrientes nos solos esgotados e explorados durante anos e anos, com pesticidas e herbicidas para combater pragas que exterminam também a biodiversidade.

A humanidade pensa a curto prazo e a longo prazo esta forma de pensar vai sair-nos cara e o preço é ficarmos sem solos férteis.

Todas estas práticas estão a levar à desertificação do solo de microrganismos vitais para a fertilidade  e para o seu equilíbrio, bem como o de todos os seres vivos que dele dependem.

O resultado são solos empobrecidos, sem vida, desequilibrados, dependentes como é um doente crónico.

A forma massiva de produzimos alimento está, para além de arruinar o nosso solo, a arruinar a nossa saúde.  A nossa microbiota intestinal está a ficar tão empobrecida quanto o microbioma dos solos. 

A diversidade de estirpes de bactérias boas do nosso organismo fica limitada também a biodiversidade dos alimentos que ingerimos. Os alimentos são cada vez menos diversos, mais pobres em nutrientes e nós, tal como o solo, cada vez nos suplementamos mais para fazer face às carências vitaminicas e minerais de que sofremos.

A apresentação do Paulo pôs a nu uma sociedade que está cheia de doenças crónicas, que vive em desequilíbrio com a natureza com a arrogância de quem acha que sabe tudo e que afronta a sabedoria da Natureza. 

Uma sociedade que investe orçamentos milionários para tratar em vez de prevenir e alimentar com qualidade.

O testemunho da Dra. Casey Means, no Senado nos Estados Unidos, foi arrebatador. Uma mulher com tomates que apontou todas as debilidades do sistema e os interesses das indústrias alimentares e farmacêuticas em manterem tudo como está. Sem questionamento, apenas perpetuar este modus operandi de geração em geração.

Felizmente há quem se questione e tenha tomates (e outros vegetais) como a Ana, nossa convidada da próxima edição Mulheres com Tomates, e o seu marido, Paulo Carvalho. Produzem na sua quinta, em Casével, perto de Santarém, alimentos com métodos da agricultura regenerativa e vão mais além, fazem verdadeiro serviço público, partilhando a sua visão e o seu projeto Vivid Farms com a comunidade.

Nesta manhã linda de novembro fomos presenteados pelos raios de sol de inverno que iluminaram a nossa visita com a Ana, o Paulo e os seus cães.

Não vou conseguir ser precisa na descrição das inúmeras técnicas e práticas de agricultura regenerativa que nos mostraram na Vivid Farms mas retive a frase do Paulo “o que é problema para os outros, é uma solução para nós”. Deram uma segunda vida a um contentor que utilizam para matador de galinhas, hidrolisam desperdício de peixe para nutrirem a terra, usam composto de algas que são invasoras das praias da nossa costa, utilizam os resíduos das podas de quintas da região, os resíduos industriais de carvão, as folhas dos lagares de azeite e muito mais. Aqui todo o sistema de produção tem a economia circular como princípio e como visão a regeneração para um solo rico em biodiversidade que produza alimentos nutritivos e saudáveis em equilíbrio com a natureza.

O meu agradecimento à Ana e ao Paulo pela sua hospitalidade, pelo seu sentido de responsabilidade social ao partilharem o seu conhecimento não só com

consumidores mas também com os seus colegas agricultores, por nos porem a pensar e partilharem o fruto do seu trabalho num simpático e delicioso almoço no seu pedaço de paraíso.

Se é fácil? Não é. Se é preciso muita capacidade de investimento? Certamente. Se é a solução para a alimentação de 8 mil milhões de seres humanos? Não sabemos. Mas se continuarmos a produzir alimentos de forma intensiva e massiva, vamos transformar o nosso planeta azul num planeta castanho sem vida e sem alimento para a humanidade. Isso dá para perceber.

Visitem a Vivid Farms e levem os vossos filhos. As escolhas de hoje definem o nosso futuro.

Sobre a Vivid Farms: podem saber mais aqui e comprar os seus produtos no mercado de Santarém.

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Regressei de férias a pensar no pequeno-almoço.